Por ser insone.

Novembro 9, 2009

É questão de momento.

Você acorda no meio da noite e enquanto seu corpo tenta se situar, lê o texto de alguém. As palavras então viram deleite e as doçuras são absorvidas em experiência única, como o leite que foi tirado para completar o café ou a xícara vazia. Como o corpo que foi tirado da cama para alimentar o desejo preguiçoso. Rodeia as frases até encontrar a que lhe convém engolir. Dispara uma hemorragia de infinitude sobre a mesa, ou o chão, ou o sofá. Corta o próprio cabelo porque a mente ainda está fresca e não vai reclamar do corte errado. O espelho (é) mente nessas horas. Aproveita a própria passividade para brincar de contar verdades ao fogão, sua boca treme. Seu corpo passeia  pela casa até sentar encostado no corredor. Coça a barba. Que barba? Desaba. Ali mesmo. As mãos em concha, o piso frio compensando o calor. Afastando más presságios.

Retrato;

Novembro 6, 2009

Teu rosto para mim

São imagens que (des)encaixam

A todo momento

Como placas presas por fios,

Como cordas (sus)pensas no ar,

Como quebra-cabeças

Ou são mesmo meus olhos:

Cubistas, abstratos, abstraídos

(Dis)traídos pelos olhos teus

Sou o expectador da tua imagem,

Consumidor do que teu produto criou,

Epifania da tua chegada

Que fotografei outro dia.

Tomando espaços.

Novembro 4, 2009

[...]

A todo momento presente o presente, para todo o sempre o momento todo. Eu sinto daqui que mesmo essa fuga para dentro de nós, mesmo as formigas que insistem, mesmo os três guardiões, o vento e as árvores enfim decoram o que eu também vou levar daqui pra frente: teu sono nos meus braços, nossos planos e prazos, o afago do alto, folia. Abrigo? Nosso chão de pano, nossa casa ambulante. Sacudindo depois de cada parada o pó do que suja a alma, correndo da chuva e fazendo vendaval em conta-gotas. Para eu sorrir contigo: juntar os passos no mesmo caminho.

Perceptível.

Outubro 28, 2009

cafeteria 27.10

- Winter Swim -

Eu páro para ver o que é escrito em mim. Esses dias todos minha máquina de datilografar(-me) tem mimeografado em minhas veias coisas que ainda não li. É quando a gente sente falta de nós mesmos. É tanto adaptar com outras pessoas que desacostumamos com os gestos próprios. Volto à essa padaria que parece me reservar a melhor vista para as árvores do lado de fora, sempre. Penso que este lugar descobriu que o que sinto cabe muito bem aqui.

Tudo completa e o cheiro de pão que faz fumaça na chaminé aqui em cima substitui a frieza que reservo para esses dias. Daqui eu crio uma fotografia em filme para enviar ao meu futuro como memória. E as coisas do passado ficam em uma gaveta com a inscrição: “Proibido abrir em dias de revolução”.

Adio a minha vontade de ir ver o Sol. Por enquanto ele vigia a minha pele, depois eu verei o seu pôr. É diferente quando uma formiga caminha sobre o papel enquanto a gente presta atenção nas miudezas. De repente ela se torna mais. É assim. É desse jeito para encontrar as respostas que gente alguma pode enxergar a olho nú. É assim que se lê o que é escrito nas veias. Um pouquinho de cada um é perceptível no olhar, só um pouquinho. Por isso a paixão. O que sobra é amor, e é raro.

Talvez.

Na copa, as árvores já começam a ser incendiadas com o fogo do fim da tarde. Vou correr para não perder o momento. Esquecer da alegria é proibido, por isso recuso divagações adultas por demais. Ofereço minha alegria a mim e a quem mais quiser ver árvores e cores no céu.

Queda de sinal;

Outubro 24, 2009

Há intervalos na vida em que refreiamos partes de nós. Seja pelo cansaço repetitivo de alguns dias ou pela ilusão de que o que cultivamos não precisa ser regado porque já brotou no canteiro do tempo. E o mesmo tempo nos traz a falta de algo, até notarmos que esquecemos de nós mesmos. Então quanto mais tentamos ressuscitar, mais apagamos e somos apagados. Quando chega-se a esse nível, é necessária uma força que desperte nossos sentidos dorminhocos e nos lembre que somos indeléveis. Daí, ou o intervalo acaba ou somos transferidos para outro canal.

Saciei-me o bastante sozinho. O caderno acabou e senti falta de publicar.

Eu ando suspirando muito
Mas disso eu não me admiro

[O extravagante romance de Marie Blizard - Schenini]

Maio 23, 2009

Eu parei.

Agora meus textos vão ocupar outros espaços, germinar em outros canteiros, iluminar outra escuridão, enquanto meus pensamentos não tem dono.

(Tô torcendo pra eu estar errado)

O mar às seis;

Maio 22, 2009

22.05.09 praia

Vagalumes cargueiros pousados no horizonte

E as ondas vem correndo abraçar meus pés

Onde, ao tocá-los, se desfazem,

Num beijo cálido se despedem

E para o amor não retornam mais.

Maio 21, 2009

há tanto o que contar.

Ruído;

Maio 21, 2009

E se o nosso semáforo perder mesmo as cores? Num segundo retrocesso a gente sai de cena e todo aquele riso vai ser semáforo 15.05.09substituído pelo barulho monótono dos carros? Cadê nossos passos largos entre os automóveis tentando confirmar admiração no rosto de cada um? Cadê o flutuar? Cadê o ar? Onde estão teus olhos, Capuccino?

Justo no refrão da nossa música não quiseram que terminássemos nossa letra, teimando em dizer que teus sustenidos e bemóis são distorções da nota natural, mas eu gosto é dos teus acordes. E de acorde em acorde a gente acorda pra um novo dia, onde nossos pés, ainda sobrando num lençol, assobiam um pr’outro notas diminutas. E de minuto em minuto tuas caretas alegrando as nuvens cobrem qualquer sombra de solidão. Então, Capuccino, depois de tanto conhecer, o que fazer agora? É só a dúvida que me paralisa. Perdoa.

Mas tire esse olhar vago das coisas porque pensar no pior só traz desgosto. Traz tuas malas que a gente parte pelo menos ali pro meiofio, pra avenida ou pra varanda, deve haver um jeito de viver sem esse peso todo que insistem em colocar sobre a vida. Na nossa mochila só deveria caber a glória de ser o próprio ser, o próprio particular, cada caquinho que encontramos de nós mesmos e, assim, unir cada pedaço à própria maneira, tendo no final uma escultura diversa e singular. Porém, mesmo no nosso total ao revés há o dedo de alguém, o olhar de alguém, o querer de alguém, o sentir de alguém invadindo a bagagem. Então, depois de tanto piquenique reclinado em uma árvore, devemos parar a música, Capuccino?

Parar não é a palavra.

Deixar soar de um modo diferente, talvez.

“Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.