Som caseiro
Dezembro 22, 2009
Canto contido e desafino bem legal no fim.
Não me importo .
GG.
Dezembro 17, 2009
Minhas roupas são maiores que o que meu corpo pede. Por isso é normal eu escutar “Isso é um pijama?”. O que sinto, o que penso, o que é para mim parece exceder. Meu coração é pequeno. Mas gosto das coisas plenas. Não recorto para que caibam em mim. Já vim pequeno para este mundo grande, espero ser grande para compreendê-lo um dia. Não me sinto incompleto por isso. Pelo contrário, fico tão completo que derramo. Escrevo por excesso e é o que também me leva a caminhar por horas. Se subo na ponte, excesso. Se sorrio, excesso. Se choro, excesso e derramo assim: por consequência. Já tive que suportar grandes coisas e agora tenho que suportar mais uma: o “se”. O se é amigo do “talvez”, o talvez de uma ausência muito longa. Supor caminhos e planejar quando um pedaço do plano pode ficar longe das mãos é difícil. Porém, maior é o que a gente quer. Como um mar tão cheio pode ficar vazio tão rápido assim, meu Deus? Prefiro crer que é a vazante preparando a enchente e não o contrário.
Fiz uma pessoa de camisa minha e no final de cada costura o nó que apertamos não me deixa esquecer o nós. Estou vestido e quando me perguntam se é um pijama eu respondo: não, é amor. É bem maior que eu e antes que minhas mãos tentem alcançá-lo, seu tecido já está me abraçando. Não digo nada e nem reclamo dessa desigualdade; estou feliz, o que importa?
Você pode deduzir que a camisa no varal significa também eu estendido lá, pois foi costurada na pele e se arrancar dói. Você pode reduzir seu tamanho para caber em mim se quiser, mas nada melhor para mim que crescer para abrigar você. Coagido a ir onde for, compreendido entre dois tamanhos que se completam.
Eu transbordo, Thais.
Em ti.
Cê.
Novembro 30, 2009
Cecília, as coisas estão diferentes.
Acordo todas as manhãs para viver,
Escovo os dentes de frente para o espelho
Enquanto alguém me espera na mesa pro café.
Eu caminho indagando as coisas.
Sabe o canteiro do quintal?
Plantei umas sementes lá.
Será que é Sol demais pra germinar?
Será que…
Será que eu sou suficiente?
Visto-me e vou para o trabalho,
E no final de semana ainda me sinto inteiro.
Em feriados, passo o dia em alto-mar
Com meus amigos e o Seu Jorge,
Marinheiro velho, lobo-do-mar.
Barco resiste, peixe à vontade.
Mar…
Mar…
Quem fez o mar?
Vou sendo inundado por uma vida nova.
Estranhamente alguém me acompanha,
Estranha a mente sentir isso,
Estranhamente a paz.
Desempoeirei uma bíblia velha,
Desenterrei a fé e a dúvida.
De onde eu vim?
Quando você voltar, Cecília
Não me espere com os mesmos discos nas mãos
Pois eu vou cantar, do aeroporto até em casa
E os ponteiros vão girar ao contrário
Até a gente comemorar tudo o que não se pôde
Nesse hiato que foi a sua ausência.
Cuida dessa gripe
E pede pra dona Nonoca aqueles chás.
Não esquece do despertador antes de dormir
E de abrir bem as janelas ao acordar.
Cecília, eu tenho ajoelhado à noite,
Eu tenho dormido bem.
Cecília, eu acho que encontrei Deus.
parecido com soluço.
Novembro 24, 2009
Contracapa.
Novembro 21, 2009
Mas contracapa é o quê?
É a arte de se contradizer.
É, antes de qualquer sumário, um antiherói do título educado.
É o alívio das edições infelizes.
É desmentir os dados que a capa aponta,
Abrindo a mente para aprender que cada um é responsável
Por uma tradição a ser quebrada.
A página que se esconde do leitor
Desde a livraria até o momento em que é retirada a embalagem
E se conhece o interior que desconstroe
A expectativa do externo.
Lá está ela:
Uma página tão contra a capa,
Excitando o nosso desejo de conhecer mais da verdade que há
Em cada um de nós.
Novembro
Novembro 18, 2009
Tão frágil é ver-te
Subindo as escadas do hotel
Despindo impasses,
Outrora presa.
Cada maçaneta reflete
Teus olhos de botões,
Tua cor assustada, teu corpo
Que entorta
A cada volta.
No quarto,
A réstia de luz
Revelando poeira na madeira.
Nas malas e no banho quente
Teu cansaço
Expirado.
Veias desvairadas mergulhadas no lençol
Palavras seladas ao toque e o Sol
Devolvendo a noite
Enquanto o corpo pede calado
A recompensa, o colo, o afago.
E ficam assim teus olhos,
Desabotoando mensagens para mim.
As pedras;
Novembro 16, 2009
Caminhava reaprendendo porque nunca mais caminhara na ciclovia. Era um bom motivo para chutar novamente as pedras que nunca mais chutara.
Não se preocupou muito com o que diria. Queria salvar uma garotinha que vinha se perdendo de gole em gole. Queria salvar na essência, sem artificialidade.
Mas o Sol já ia se pondo, não chegaria tarde demais?
Também não apressou os passos.
[Havia uma dor de cabeça instalada que ainda não notara]
Atravessou a avenida sem notar como notava antes. Passou sob os pés de cajú sem respirar o cheiro de antes. Passou pelo cruzamento sem olhar para os lados do perigo que sempre olhavam de volta. Entrou na casa sem o medo.
Antes, ia para sorrir. Agora ia para desenhar sorriso nela. Ao menos nas palavras enquanto falasse, ou no som da sua voz, mesmo que fosse efêmero.
Ia para salvar ao menos um segundo da eternidade.
A garotinha afundava no sofá. Gostava de mergulhar. Às vezes sentia que poderia mergulhar dentro de sim mesma, onde haveria uma mão recolhedora que a guardaria forte e abafaria o som do que quer que saísse de sua boca. Seu coração era explosivo dentro de si. E seguro.
Era até outro dia.
Não tinha o que dizer. Ela disse que não havia mesmo algo a ser dito. Mas que desperdício! A garotinha tinha dentes e lábios para sorrir tudo o que quisesse, e mais, garganta para espantar o mal num grito de felicidade. Por que não o fazia? Era como alguém que abraçava a todos com seus braços mas que não aprendeu que podia abraçar a si mesma. E ele que não tinha voz?
[Percebeu a dor de cabeça]
Foi embora.
No caminho de volta colocou no lugar as pedrinhas que haviam sido chutadas pelos mesmos pés. O sol recolheu no horizonte sua última ponta de luz e os automóveis voltavam cansados para casa. Como tudo, ele mesmo voltava ao seu lugar de origem, sabendo que no outro dia as pedras, o Sol e os automóveis renasceriam para seu ciclo eterno. Somente ele desaprenderia mais uma vez a andar na ciclovia. Já as pedras, não dependeriam dele para mudar de lugar.
Chama-se “compreensão”.
Novembro 13, 2009
— E para ninguém entender errado, eu soletro:
d-i-f-í-c-i-l.
Por ser insone.
Novembro 9, 2009
É questão de momento.
Você acorda no meio da noite e enquanto seu corpo tenta se situar, lê o texto de alguém. As palavras então viram deleite e as doçuras são absorvidas em experiência única, como o leite que foi tirado para completar o café ou a xícara vazia. Como o corpo que foi tirado da cama para alimentar o desejo preguiçoso. Rodeia as frases até encontrar a que lhe convém engolir. Dispara uma hemorragia de infinitude sobre a mesa, ou o chão, ou o sofá. Corta o próprio cabelo porque a mente ainda está fresca e não vai reclamar do corte errado. O espelho (é) mente nessas horas. Aproveita a própria passividade para brincar de contar verdades ao fogão, sua boca treme. Seu corpo passeia pela casa até sentar encostado no corredor. Coça a barba. Que barba? Desaba. Ali mesmo. As mãos em concha, o piso frio compensando o calor. Afastando más presságios.
Retrato;
Novembro 6, 2009
São imagens que (des)encaixam
A todo momento
Como placas presas por fios,
Como cordas (sus)pensas no ar,
Como quebra-cabeças
Ou são mesmo meus olhos:
Cubistas, abstratos, abstraídos
(Dis)traídos pelos olhos teus
Sou o expectador da tua imagem,
Consumidor do que teu produto criou,
Epifania da tua chegada
Que fotografei outro dia.
Tomando espaços.
Novembro 4, 2009
[...]
A todo momento presente o presente, para todo o sempre o momento todo. Eu sinto daqui que mesmo essa fuga para dentro de nós, mesmo as formigas que insistem, mesmo os três guardiões, o vento e as árvores enfim decoram o que eu também vou levar daqui pra frente: teu sono nos meus braços, nossos planos e prazos, o afago do alto, folia. Abrigo? Nosso chão de pano, nossa casa ambulante. Sacudindo depois de cada parada o pó do que suja a alma, correndo da chuva e fazendo vendaval em conta-gotas. Para eu sorrir contigo: juntar os passos no mesmo caminho.
Perceptível.
Outubro 28, 2009

- Winter Swim -
Eu páro para ver o que é escrito em mim. Esses dias todos minha máquina de datilografar(-me) tem mimeografado em minhas veias coisas que ainda não li. É quando a gente sente falta de nós mesmos. É tanto adaptar com outras pessoas que desacostumamos com os gestos próprios. Volto à essa padaria que parece me reservar a melhor vista para as árvores do lado de fora, sempre. Penso que este lugar descobriu que o que sinto cabe muito bem aqui.
Tudo completa e o cheiro de pão que faz fumaça na chaminé aqui em cima substitui a frieza que reservo para esses dias. Daqui eu crio uma fotografia em filme para enviar ao meu futuro como memória. E as coisas do passado ficam em uma gaveta com a inscrição: “Proibido abrir em dias de revolução”.
Adio a minha vontade de ir ver o Sol. Por enquanto ele vigia a minha pele, depois eu verei o seu pôr. É diferente quando uma formiga caminha sobre o papel enquanto a gente presta atenção nas miudezas. De repente ela se torna mais. É assim. É desse jeito para encontrar as respostas que gente alguma pode enxergar a olho nú. É assim que se lê o que é escrito nas veias. Um pouquinho de cada um é perceptível no olhar, só um pouquinho. Por isso a paixão. O que sobra é amor, e é raro.
Talvez.
Na copa, as árvores já começam a ser incendiadas com o fogo do fim da tarde. Vou correr para não perder o momento. Esquecer da alegria é proibido, por isso recuso divagações adultas por demais. Ofereço minha alegria a mim e a quem mais quiser ver árvores e cores no céu.
Queda de sinal;
Outubro 24, 2009
Há intervalos na vida em que refreiamos partes de nós. Seja pelo cansaço repetitivo de alguns dias ou pela ilusão de que o que cultivamos não precisa ser regado porque já brotou no canteiro do tempo. E o mesmo tempo nos traz a falta de algo, até notarmos que esquecemos de nós mesmos. Então quanto mais tentamos ressuscitar, mais apagamos e somos apagados. Quando chega-se a esse nível, é necessária uma força que desperte nossos sentidos dorminhocos e nos lembre que somos indeléveis. Daí, ou o intervalo acaba ou somos transferidos para outro canal.
A volta do retorno II – O regresso
Outubro 24, 2009
Saciei-me o bastante sozinho. O caderno acabou e senti falta de publicar.
Eu ando suspirando muito Mas disso eu não me admiro[O extravagante romance de Marie Blizard - Schenini]
Eu parei.
Agora meus textos vão ocupar outros espaços, germinar em outros canteiros, iluminar outra escuridão, enquanto meus pensamentos não tem dono.
(Tô torcendo pra eu estar errado)
O mar às seis;
Maio 22, 2009

Vagalumes cargueiros pousados no horizonte
E as ondas vem correndo abraçar meus pés
Onde, ao tocá-los, se desfazem,
Num beijo cálido se despedem
E para o amor não retornam mais.
Odisséia.
Abril 21, 2009
Aniversários são excursões ao redor do Sol.
A cada ano uma volta completa.
E o pagamento é a sua velhice.
(Ao pequeno Josué e à Luana. Voltas completas e uma longa odisséia solar)
put your memories in boxes;
Abril 21, 2009
só jogou no papel;
Primeiro foi meu nome correndo na tua boca , vindo do final da rua e ainda tinha resquícios de apresentação com brinquedo novo. Nariz de palhaço. Aí a dúvida do almoço e decidi aumentar o tempo juntos. Não tem câmera, não tem pijama, não tem violão. Tem comida? E foram seis pizzas, um banho espiado que acredito, o ovo de páscoa guardado e um bocado de álbuns. Sexta-feira até que chegou bem.
E se desenrolou surreal.
Porta. Fecha. Filme. Verde. Como coração abraçando (a)ventura.
Depois tudo eram velas, braços, abraços. Corpos diluídos num frio aquecido e um filme não assitido. Era música sussurrada lentinha e um choro bobo nascendo do outro lado. S-i-l-ê-n-c-i-o. Como se no mundo inteiro não coubesse tanta sincronia. Secou a lágrima que nasceu em êxtase e verteu num sorriso enquanto lá fora tudo dormia para nós. Aqui dentro olhos, teu rosto em silhueta, sobram sombras. A chama que agora não ousava mais encurtar o pavio eternizava tudo em uma lembrança posterior. Promessas. Estalido. E lidos eram teus pensamentos que não falavam mas se erguiam. E lindos eram os cachos desaguando no azul, no vermelho e no laranja. O castanho e o preto dos copos de capuccino frente a frente.
Abriu-se a noite, o levantar e a volta.
Ainda acordava do que pareceu sonho quando cancelou o teatro e conjugaram-se cinco pessoas num carro. Daí a praça, daí a música, daí o balançar de fitas mágicas, daí a esmola pra suposta viagem. Já era o sábado nascendo antes da hora, abortando o sono e vivendo madrugada. Então outros malabaristas naquela rua. Mais apresentações, mais palmas, menos dinheiro. Arrancar informação e outra vez sem rumo.
Da janela do carro a Lua, em um Quarto Minguante perfeito, encostada em um prédio. Fomos embora.
Fui acampar,
Abril 11, 2009
mas voltei antes do fim. O céu nublado mas a chuva caia mesmo era sobre uma foto de infância tirada do mural especialmente pra mim. Não sei, às vezes confundo meus golpes de liberdade com as coisas que nem sempre podem me acompanhar, assim, entre aspas, e fico na ânsia de levar tudo guardado num lugar só, esquecendo que nem tudo cabe na minha caixa. E pessoas não cabem na minha mochila.
ploc ploc ploc
Abril 2, 2009
Oh, Chuva! como deixaria de te citar
nas minhas linhas tortas, memórias?
Se todos os dias é contigo que durmo
e escuto teus murmúrios ao amanhecer?
Se aqui na minha cidade tomas a metade do ano
e ainda alguns meses mais?
Se não me negas céu limpo quando preciso
e, quando só, me abraças no caminho de volta pra casa?
Mas ainda insiste no teu medo, tua besteira
dizendo que um dia hei de trair-te com o Sol
ou com tua mãe, Nuvem Cheia, que asneira!
Se um dia resolveres fugir desta cidade
(Coisa difícil mas bem sei do que és capaz)
Nem penso direito, fujo contigo
Pois a ti jurei amor eterno.
Perguntei, disseram que era errado.
Quis viver, acusaram um pecado.
Que Deus é esse que cria e cala o criado (mudo) ?
.mas eu ainda insisto em não ser cego
“Eu acho que tenho certeza daquilo que eu quero agora,
daquilo que mando embora,
daquilo que me demora.
Eu acho que tenho certeza daquilo que me conforma,
daquilo que quero entender.”
Criado-mudo – O teatro mágico
Eu deixo assim entre nós um silêncio suspenso, um mundo, um vão. Deixo reticências renascentes no olho-a-olho, segredos no mão-a-mão. Me calo e interrompo frases pra não deixar sair o que quer sair, pra não deixar morrer no meio do caminho o que reguei todo esse tempo, pra deixar viver ainda pelo menos em mim. Faço isso pra te proteger, pra te proteger de mim.
A gente que nem sabe que rumo tomar e só entende pra onde se quer ir :~
Sem querer;
Março 6, 2009
Hoje de presente tua presença
e como queria te levar pra ver o mar
encontrar simplicidade num grão de areia
e dizer que o mundo é muito mais do que impõem,
que a primeira vez não tem prazo nem validade,
que ainda descanso no teu ombro,
que amanhã sempre é primeira vez,
e que de tentar se faz a vida
No entanto, um medo de querer sem poder,
um medo de perder sem nunca ter;
menina do vestido de retalhos,
teus olhos são de renda, teus pés são de flor
Tua ternura é manhã com três mil sóis,
alvorada que invade a minha persiana
e quase sem querer borro num papel o teu sorriso
e borrando riem meus olhos coloridos,
humildes olhos para tanta luz
Nossos dedos se entrelaçam num abraço,
pendem do corpo nossos pés, nossos braços
rodando submissos entre girassóis
Mas quando não estás aqui
tudo escurece num solstício
nem é que eu tenha sofrido tanto assim,
mas a tua ausência me faz sentir
(só)
‘T
Março 4, 2009
Então quando eu tô chegando ao fim, no último momento de um filme qualquer que acontece na minha mente, ela me tira a atenção, escreve no ar palavras esquisitas e me abraça rindo de qualquer besteira. A alegria volta, o dia amanhece e todos os violinos tocam enquanto tudo ressurge numa suave atmosfera sob nossos pés.
♥
Pressentimento;
Março 3, 2009
Vai voltar e repito a cena
Mil vezes na minha mente, você entra
E te levanto no ar (fôlego).
Sorri, sorri de novo, amor
E eu brinco com a ponta do seu nariz.
“A tal carta minha não vai mesmo chegar.
Pra te ver, te alcançar
roubo uma flor na portaria
degrado os degraus.
Já tão perto de seu apartamento
em cada andar
eleva dor.”
Para a melhor poesia de Anápolis, aqui
“Eu queria era escrever.
E queria que o meu escrito fosse uma criatura monstro sem rosto, que desse ao leitor um sorriso cínico, com um aperto amargo de prazer no fundo da garganta, logo antes de desferir sobre ele um tapa pesado e tosco, traindo a confiança que me fora depositada, desperdiçando a benevolência e a boa vontade daqueles que lançaram olhos às minhas palavras, queria era ser execrável, asquerosa como vermes ou doenças, queria escrever mendigos chagásticos e bêbados, mas não os sei, então desenho sombras de órgãos, sujo meu texto de catchup e digo que era sangue, fico só eu, sem rosto, amargando o cheiro dolorido do ferro nas polpas dos dentes.”
Mais dela aqui
bahiana;
Fevereiro 16, 2009
isso me fez sentir saudade, porque a tarde tá linda e não vai chover mais, porque eu ainda tenho dinheiro no bolso e as lojas ainda abertas pra comprar qualquer refrigerante que faça arrotar, porque eu ainda tenho ouvidos que ainda aguentam mais um montinho de berros e uns olhos de olheiras cansadas que não cansam de ver uma menina pulando e rindo em “ahú HAHA”. Só por causa disso. :s
TP, berraaê :)
.
Janeiro 26, 2009
“Estariamos caminhando para uma fase de total independência dos artistas? Músicos sem gravadoras usam o MySpace, jornalistas sem contratos usam os blogs, fotógrafos sem agências usam o Flick.R, cineastas sem patrocínio usam o YouTube, escritores sem editora publicam em casa. Será?”
Comentário da Anita aqui
desculpa;
Janeiro 19, 2009
Ah, meu blog, sempre com um cheiro inconfundível. Sempre sinto esse cheiro quando chego aqui, é estimulador pra mim! /viaja
Só que não tenho postado aqui faz quase um mês, desculpa. É que meu corpo não faz muito rápido o que minha mente me proporciona a fazer :~ Tô com centenas de projetos em mente, textos na cabeça e no papel, algum tempo livre e muita empolgação pra colocar as coisas em prática mas é que meu computador anda meio gripado e acaba não deixando as coisas em relação ao blog fluirem muito… Enquanto isso vou criando as coisas aqui fora: no meu quarto, no papel, nas telas, no violão. Além de que ando feliz com o que venho acompanhando no blog do Edu e no da amiga dele, a Jéssica. E se eu achasse o botão pra linkar eles aqui eu colocaria mas como tô com sono deixo pra depois. :D
Quando essa gripe passar eu volto a escrever melhor aqui.
beijos :*
Para uma menina como uma flor.
Dezembro 20, 2008
Porque você é uma menina como uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, o que, aliás, você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.
E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras. E porque você sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano, e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre um nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, parecendo uma santa moderna, e anda lento, e fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der uma paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.
E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta e não concorda porque ele é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você
se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara-na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando. E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.
E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, “Minha namorada”, a fim de que, quando eu morrer, você, se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse cantando sem voz aquele pedaço que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.
E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora – tão purinha entre as marias-sem-vergonha – a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nessas montanhas recortadas pela mão de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa.
E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos – eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfrentando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações – porque você é linda, porque você é meiga e sobre tudo porque você é uma menina com uma flor.
- Vinícius de Moraes
Porque ontem eu quase me perdi sem o “abraço da ponta dos pés” :T
A um amigo na chuva;
Setembro 18, 2008
Amigo,
Eu sei que não tenho todas as respostas
Que com meus braços eu não posso abraçar o mundo
E nem dizer aquilo tudo que tu gostas
A borboleta fez aniversário e ainda espera o teu beijo
Teus pés trilham o acaso e correm ao abraço
Mas não tropece no passo que ainda colore o que eu vejo
Eu sei que ainda há algo nesse frasco
Então guarda o teu perfume, amigo, e tenha calma
Não são todos que por trás desse casco
Conseguem manter pura uma boa alma
Teu sorriso é mais belo sem as teias
Deixa, as lágrimas já regaram tuas veias
Mas agora espera as flores como o inverno
Que depois inflama e despoja o cinza terno
A nobre ave que rodeia a montanha
Tão admirada por ti em uma dúvida tamanha
Até onde escalaria, amigo, para alcançá-la?
E perderia o fôlego se porventura pudesse pegá-la ?
Não perderás a amizade que tiveram
Senta, tira esse fardo de ti agora
E então provarás o que já nos disseram:
- A escuridão sempre antecede a aurora
Notícias de um domingo à tarde
Setembro 9, 2008
Era uma biblioteca na Rua dos Cravos, ao sul da cidade, no bairro Brasão. Os ventiladores de teto giravam vagarosamente e a luz que atravessava as janelas de vidro produzia caminhos diagonais de poeira flutuante. O livro aberto na mesma página por minutos e o chocolate quente que já esfriava. Sentado no fundo da ampla sala, onde ficavam as mesas de leitura, eu observava minunciosamente pela primeira vez um senhor que lia jornais todas as tardes naquele lugar. Vestia camisa xadrez, calça marrom, usava sapatos escuros muito bem lustrados, uma boina cinza na cabeça e era cego de um olho. A xícara em que bebia seu café era tão branca quanto sua pele e os seus fios de cabelo, onde já lhe faltavam nas têmporas. Parecia sossegado e geralmente só trocava palavras com o bibliotecário e com o servente.
Mas aquela tarde era especial, tinha de ser. Aconteceu quando ele abriu “O longo adeus” de Raymond Chandler, um dos melhores livros que já li e que havia terminado há algumas semanas. Reconheci pela capa e fiquei me perguntando por que ele trocaria os jornais por um livro. Também não sei porque mas a vontade era grande de ir lá, sentar na frente dele e fazer mil e um comentários. Mais um tempo se passou, terminei meu chocolate já frio, li mais um capítulo e fui. Desviando da vergonha me aproximei silenciosamente e:
- Com licença, senhor, posso sentar aqui?
Me respondeu com um sorriso simpático e acenou com a cabeça. Ficou esperando alguma palavra e prontamente perguntei:
- Sabia que esse livro é muito bom? Começou a ler ele agora?
O velho deu uma risada, fechou o livro e disse:
- Eu não leio muito bem, na verdade eu já não enxergo muito. Os anos, meu filho, os anos vão passando e a gente perde tanta coisa…
- Queira me desculpar mas eu vejo sempre o senhor por aqui lendo jornais, achei que fosse muito bom da visão, apesar do seu olho… desculpe. – abaixei a cabeça com vergonha do comentário.
E como não me arrependo daquele comentário! Daquele e de tantos outros que fiz. Nos apresentamos, o meu nome é Jacob, o dele Olavo e até que não foi uma conversa difícil. Ele aparentava ser fechado, mas era só fachada, descobri isso com os dias, aliás, em poucos dias nos tornamos íntimos. Me contou a respeito do seu olho esquerdo, ele foi um fuzileiro na Segunda Guerra Mundial e ficou ferido em um combate na Itália, em 1945, onde perdeu seu melhor amigo Abreu. Os assuntos sobre livros e jornais foram ficando de lado e começamos a passar as tardes naquela biblioteca conversando sobre nós, a vida e histórias incríveis. Certa vez me contou que durante a guerra, o inverno na Itália estava tão rigoroso para os soldados brasileiros que alguns deles pediam permissão pra ir em algum banheiro, canto ou loja e por lá se suicidavam. Descobri que ele estava muito longe de sua cidade natal, que tinha 85 anos de idade e que vivia de uma aposentadoria a qual sustentava-o em uma vida não tão ruim. Ele tinha um gato bengal.
- E qual o nome do seu gato?
- Meu gato não tem nome, eu só o chamo de gato. Acho que se eu colocar nele um nome vou acabar considerando-o como um amigo e passar a tratá-lo como pessoa. Mas as pessoas sempre vão embora… deixa ele ser apenas uma distração na casa, garoto! – disse-me rindo em palavras cansadas.
Interessante é que a nossa relação ficou tão estreita que passei a chamá-lo de amigo e fazer dele confidente dos meus problemas. Estranho é que o velho nunca aparentava problemas, e a medida que os dias iam passando ele ficava mais aberto e mais emotivo, parando de falar sobre guerras para falar de sentimentos. O mundo já se resumia naquela sala, entre as imensas estantes de madeira repletas de livros e os segredos já caminhavam por ali, da boca de um para o ouvido do outro. Falei da faculdade e das pessoas que me rejeitavam lá, da pressão dos meus pais, da desarmonia na minha casa e do caso do novo namorado da minha ex que me ligava no meio da noite ameaçando me espancar caso eu continuasse olhando pra ela. E a voz do meu novo amigo me acalmava:
- Jacob, nem todos nessa vida nos olham como pessoa, mas como objeto. Tenta não olhar por esse lado medíocre da vida caso contrário você vai se tornar tão medíocre quanto eles. Os poucos amigos que eu tenho me contam coisas terríveis e boas ao mesmo tempo, cabe a mim escolher o que quero guardar.
E quando eu perguntava sobre seus amigos ele dizia:
- Ah, são bons amigos. Eu os olho todos os dias. Acho que você vai acabar tendo uma certa intimidade com eles também. Um dia você vai conhecê-los melhor.
Há alguns dias eu passei a ir na casa dele ler alguns dos meus contos, porque ele começou a passar mal e já não podia ir muito à biblioteca. Uma gripe muito forte que o deixava na cama enquanto eu lia sentado em uma confortável cadeira de madeira. Descobri também que ele já não tinha mais família mas sempre me recebia com um sorriso tão alegre que me fazia sentir em uma família completa, eu e ele. Se tornou meu melhor amigo, em uma época em que eu não conheci amigos de verdade. Me fazia olhar o mundo com mais simplicidade e calma, me fez sentir importante e compreendido. Não sei se ele sentia o mesmo por mim.
A gripe só piorou e eu me preocupei tanto que quando chegava em casa ligava pra ele e tentava fazê-lo relaxar até pegar no sono. Buscava as frases mais impressionistas e verdadeiras e ele ria do outro lado da linha me dizendo:
- Não não, pode parar. Só seja você mesmo e diz que tá comigo mais essa noite. Eu não preciso desses discursos melancólicos, garoto. – e ria um riso cansado que me acalmava no meu quarto.
Hoje eu fui visitá-lo. É um domingo e ainda está chovendo. Cheguei na casa do velho Olavo no comecinho da tarde, depois do almoço. O tempo já estava fechado e o vento era gelado e muito forte. Gritei do lado de fora atrás do portãozinho de madeira que batia no meio da minha barriga. Chamei-o de novo mas ele não respondeu novamente. As portas e janelas de vidro estavam fechadas mas o pequeno portão podia ser aberto com um empurrãozinho. Passei pelo pequeno jardim até a porta da sala, as árvores que margeavam o caminho balançavam fortemente suas folhas, ia haver uma chuva daquelas. Bati na porta e ouvi o miado do seu gato vindo lá de dentro. Ele uma vez tinha me contado sobre uma chave reserva que ficava escondida em um jarro do lado de fora. Peguei e abri a porta. A casa estava escura e a iluminação vinha de fora, do céu de um domingo que escurecia cada vez mais. Fui caminhando pela casa até o quarto dele chamando-o pelo nome. O gato me acompanhava e miava mais alto que de costume. Ao chegar no quarto acendi as luzes e chorei, chorei como nunca havia chorado na vida.
Meu terceiro ato, depois de tentar acordá-lo do sono, de um maldito sono, foi pegar a sua listinha de telefones e ligar pedindo a ajuda de todos os seus amigos. Qual não foi a minha surpresa em ver que o único número de telefone que havia lá era o meu. Sentei na beirada da cama e fiquei olhando para o nada até a nova coleirinha do gato me chamar a atenção. Nela estava escrito o nome “Jacob”. Foi aí que começou a chover.
Afinal, fui eu quem providenciei todo o necessário para o enterro do meu velho amigo. Os coveiros me ajudaram em tudo o que eu não sabia sobre o funeral e me fizeram companhia no silêncio do Parque do Sono. Dois meses. Foram dois meses de uma amizade incrível que ensinou coisas nas entrelinhas. Eu acabei por perceber que os amigos do Olavo que contavam coisas terríveis e boas ao mesmo tempo, cabendo a ele escolher o que queria guardar, eram os jornais. E que depois que os trocou por um livro foi por simplesmente não precisar ter mais que escolher, pois já previa que ia embora. E o livro acabou por escolher o Olavo e a mim. ‘O longo adeus’ começou naquela biblioteca, na Rua dos Cravos, e terminou nesta tarde de domingo, um dos quais eu realmente nunca vou esquecer. Pensando bem, quem já havia terminado o livro era o Olavo e agora sou eu quem começo a abri-lo.


substituído pelo barulho monótono dos carros? Cadê nossos passos largos entre os automóveis tentando confirmar admiração no rosto de cada um? Cadê o flutuar? Cadê o ar? Onde estão teus olhos, Capuccino?
Havia um céu, um Sol e uma tarde. Em seguida uma noite e um raro alinhamento de planetas. Não havia chuva, não havia lágrimas, nem sequer as palavras óbvias que eles esperavam. Sim, havia ternura, um violão e sorrisos que escondiam a suave sensação da despedida. Haviam cartas e passagens no bolso.
