Parece medo da morte mas não era então.
Insone
Consertos.
São mais de três horas da manhã e eu lembro de quando eu era muito adolescente e às vezes ficava com medo de algumas tardes. Parecia que faltava alguma coisa. Aquelas nuvens amarelas me davam sensação de que algo funcionava errado. E eu acabava tentando consertar, mesmo sem entender exatamente o quê. Agora, eu vivo num compasso da vida que tem algumas pausas. Até já sei encontrar os fusos errados, as falhas do sistema, mas tenho que deixar o conserto pra depois, ficar adiando. Porque não depende mais só de mim. Subordinado a ir dormir pra hora chegar depressa. E fico nessa expectativa, com meu bombeador sanguíneo arfando entre os pulmões. tudoamordegentebesta.
Que encanta.
Que sai do banho e pende a cabeça pro lado direito pra ir secando os cabelos, que vai molhando o assoalho enquanto vem pegar as roupas na cadeira, e espia a janela de vidro, e espia além do vidro. E arruma a cama, e se penteia. Pronto? As chaves. E olha uma última vez, todas as vezes, pra trás. E desce aquela escada de madeira, tanta luz para esses olhos, tanto raio solar…
Que faz uma tarde diferente antes de toda noite, que faz a lembrança do dia seguinte ser a besteira do ontem, que faz cenário na ponta desta ilha irrigada por um pôr de Sol, que criou tanto abrigo em tanta rua estreita, sobre tanto paralelepípedo, que uniu sem querer, porque é dom. Porque é som essa felicidade que sempre saiu estridente da garganta. Que se dá conta do que causa só quando os outros lhe vem contar.
Que some com nossas dores. Cadê? Quem levou? Devolva-nos. Não, diz você. Que guarda no bolso e derrama nossos pertences discretamente sobre o rio, quando voa, para que não saibamos do paradeiro de nossas faltas, de nossas rugas. Que gira, que gira, que girassol no nosso campo, mesmo o de concreto. Que não pode ir embora.
A pressa é só a de ficar.







